Monday, December 13, 2010

Pálpebras

Concordo com Rubem Alves no livro Pai Nosso. Ele fala que os pensamentos são como bolhas que emergem. Estavam lá. E simplesmente sobem... Foi assim, que alguns dias atrás, veio em minha mente a imagem da pálpebra. Eu me servia em casa, durante o almoço. Aquela cena delas de fechando e bloqueando a luz. Senti-me meio doido. Novamente, fechei os olhos, agora conscientemente. Só para ver o que acontece. Ver o fim da luz. Ver no nada...
Fiquei a pensar como seria a vida sem elas. Tenho um peixe, o nome dele é João Doidão. Na verdade não é meu, é do meu filho, Lutero. Mas, como gostamos de falar, ele é da família. Fico olhando pra ele. Morro de rir. Ele parado lá, dormindo. E de olhos bem abertos. Sempre abertos. rs
Não sei como seria nossa vida sem pálpebras. Meu Deus que loucura! Já pensou sobre isto? Elas são compostas de duas pregas móveis. A superior e a inferior.
Elas me fizeram perceber algo: que se é preciso um fim. O fim é sempre necessário. Como uma pausa no som, assim são elas. Pausam as imagens. Bloqueiam a luz para o descanso. Porque no descanso se é necessário que tudo pare, inclusive a luz.
No almoço, esta pausa tem até nome: hora da ciesta! Nos filmes, a hora da pausa é o fim. O The End. Na vida, a pausa tem dois momentos únicos. O primeiro é o dormir. O segundo e o que mais traz medo é  a morte. Existem pessoas que tem medo de dormir e não abrir mais os olhos. E curiosamente, já vi em muitos filmes a cena de uma pessoa viva fechando os olhos de uma pessoa que acabara de morrer.
Se é preciso fechar os olhos, para que as imagens parem. Na vida também é preciso que a pausa da morte entre em nosso “play”. Um dia, como o fechar dos olhos, as coisas mudarão. Uma notícia de uma doença, um acidente. E tudo mudará. A bíblia descreve a segunda vinda de Cristo, num ABRIR  E FECHAR de olhos (de pálpebras)!
Como já disse o poeta, quem tem a morte como companheira, vê a vida mais bela. Vive e não somente existe, nas palavras de Oscar Wilde, se não me engano.
Meus olhos já estão pesados...
Um profundo sentimento de pausa toma conta de mim.
Uma pausa maior que quatro tempos...
Fecham minhas pálpebras: é tempo deste texto acabar.
Ramon Goulart – 13/12/10 – Bhte/MG

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